segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Eu não quero

(Tati Bernardi)



Na infância, ouviu na aula de religião, e depois também durante o jantar, que nada era mais importante que a família. Oitenta pessoas, umas falando mal das outras, trancafiadas numa sala com motivos natalinos, lhe pareciam a visão do inferno. Mas ela devia estar errada. Se os primos corriam felizes. Ela forçava. E ia. Depois tinha febre e desarranjos e tremedeira. Uma hora isso acabaria passando.

Durante toda uma adolescência, se obrigou a fazer aquelas viagens "15 amigos, um banheiro". Era tão sofrido, tão sofrido, que tinha febres de 40 graus, amigdalites tenebrosas, rinites de arrancar todo o sistema respiratório com uma só coçada na cara. Mas se estavam todos querendo e indo. Uma hora ela acabaria gostando.

Na época da faculdade, se forçava a ir aos jogos universitários, quase sempre em alguma cidade do interior sem nenhuma infraestrutura pra receber milhares de estudantes de todos os cantos do país. Se pegava pensando "será que o hospital daqui é bom?". Mas disseram que isso não era pensamento de jovem, e ela então se forçava a não pensar o que já pensava. Se obrigava a vestir camisetas e torcer apesar de estar verdadeiramente se lixando para esportes e para todas aquelas pessoas. Beijava nas festas que todo o mundo beijava sempre desejando virar logo avó pra poder só ver televisão trancada em casa sem ninguém encher o saco: "Nossa, você parece uma velha!". Queria logo ser velha para finalmente deixar de parecer uma.

Baratas e frituras, lamas e coceiras, cachorros-quentes que, em sua fantasia, conversavam com ela (a salsinha a língua, os pães a boca): intoxicação hemorrágica por cinco reais! Tudo fedendo a cigarro de cravo, a golfo alcoólico, a ralos sobrecarregados. Como era insuportável ser jovem e conviver com jovens e, sobretudo, viajar com jovens. Os piores restaurantes, os piores quartos, as alegrias histéricas dos humanos menos elevados, os carros que sempre quebravam na estrada. Ela olhava ao seu redor e todos felizes. Ela só podia estar maluca ou desacostumada ou doente pra achar tudo detestável. Uma hora acabaria, por osmose, ficando "de boa". Uma hora pularia e gritaria como as pessoas no BBB. Então seguia forçando.

Um pouco mais velha e com um pouco mais de dinheiro, não foram poucos os Réveillons e Carnavais em festas badaladas no Nordeste e no Rio de Janeiro. Ela torcendo pra ter uma invasão extraterrestre que devastasse todos os caminhos que levam até Congonhas e Guarulhos e a todas as saídas da cidade. São Paulo sitiada. Não, ela não era estranha, com dificuldade extrema em gostar dessas coisas insuportáveis e idiotas que todo mundo gosta e faz em bando. Normalzona, queria super ter ido, mas olha que chata essa invasão extraterrestre.

As pessoas se exibiam no trabalho, como se falar "paguei Trancoso" fosse o mesmo que "ganhei um Nobel". Em silêncio, torcia pra que a chamassem pra fazer plantão no final do ano. Me encham de trabalho, pelo amor de Deus. As pessoas casavam, faziam chá de bebê, ela torcia para que a enchessem de trabalho. E enchiam. Até que um dia experimentou a sensação mais libertadora da vida. Primeiro saiu baixinho, fanho, rouco... "Não quero". Não entenderam direito, perguntaram, fale mais alto. EU NÃO QUERO. E então, como um vômito contido por mais de 30 anos, aquela verdade jorrou azeda e ácida e veloz e muita. EU NÃO QUERO!!! Seja lá o que for que todos vocês querem, eu não quero. Eu apenas não quero.

P.S.: A  Tati sempre me traduzindo tão bem!

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