segunda-feira, 16 de junho de 2014

Macaé

Clarice Falcão

Se eu tiver coragem de dizer que eu meio gosto de você
Você vai fugir a pé?
E se eu falar que você é tudo que eu sempre quis pra ser feliz
Você vai pro lado oposto ao que eu estiver?


Eu queria tanto que você não fugisse de mim
Mas se fosse eu, eu fugia

Ei, vai pegar mal se eu contar que eu imprimi
Todo o seu mapa astral?

Você foge assim que der, quando souber?
E se eu falar que eu decorei seu RG só pra se precisar
Você vai pra um chalé em Macaé

Eu queria tanto que você não fugisse de mim
Mas se fosse eu, eu fugia


Ei, se eu falar que foi por amor
Que eu invadi o seu computador
Você pega um avião?
E se eu contar de uma só vez
Como eu achei sua senha do cartão
Você foge pro Japão, esse verão?

Eu queria tanto que você não fugisse de mim
Mas se fosse eu, eu fugia


Ei, se eu contar como é que eu me senti
Ao grampear seu celular
Você vai numa DP?
E se eu mostrar o cianureto que eu comprei
Pra gente se matar
Você manda me prender no amanhecer?

Eu queria tanto que você não fugisse de mim
Mas se fosse eu, eu fugia



P.S.: Só porque essa música faz tannnnto sentido..

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Facultativo

Estatuto dos Funcionários, artigo 240: “O dia 28 de outubro será consagrado ao Servidor Público” (com maiúsculas).
Então é feriado, raciocina o escriturário, que, justamente, tem um “problema” na pauta para essas emergências. Não, responde-lhe o governo, que tem o programa de trabalhar; é consagrado, mas não 
é feriado.
É, não é, e o dia se passou na dureza, sem ponto facultativo. 
Saberão os groenlandeses o que seja ponto facultativo? (Os brasileiros sabem). É descanso obrigatório, no duro. 
João Brandão, o de alma virginal, não entendia assim, e lá um dia em que o Departamento Meteorológico anunciava: “céu azul, praia, ponto facultativo”, não lhe apetecendo a casa nem as atividades lúdicas, deliberou usar de sua “faculdade” de assinar o ponto no Instituto Nacional da Goiaba, que, como é do domínio público, estuda as causas da inexistência dessa matéria-prima na composição das goiabadas.
Hoje deve haver menos gente por lá, conjeturou; ótimo, porque assim trabalho à vontade. Nossas repartições atingiram a tal grau de dinamismo e fragor, que chega a ser desejável o não comparecimento de 90 por cento dos funcionários, para que os restantes possam, na calma, produzir um bocadinho. 
E o inocente João via no ponto facultativo essa virtude de afastar os menos diligentes, ou os mais futebolísticos, que cediam lugar à turma dos “caxias”.Encontrou cerradas as grandes portas de bronze, ouro e pórfiro, e nenhum sinal de vida nos arredores. Nenhum – a não ser aquele gato que se lambia à sombra de um tinhorão. Era, pela naturalidade da pose, dono do jardim que orna a fachada do Instituto, mas – sentia-se pela ágata dos olhos – não possuía as chaves do prédio.
João Brandão tentou forçar as portas, mas as portas mantiveram-se surdas e nada facultativas. Correu a telefonar de uma confeitaria para uma residência do chefe, mas o chefe pescava em Mangaratiba, jogava pingue-pongue em Correias, estudava holandês com uma nativa, na Barra da Tijuca, o certo é que o telefone não respondeu. João decidiu-se a penetrar no edifício galgando-lhe a fachada e utilizando vidraça que os serventes sempre deixam aberta, na previsão de casos como esse, talvez. E começava a fazê-lo, com a teimosia calma dos Brandões, quando um vigia brotou na grama e 
puxou-o pela perna.
- Desce daí, moço. Então não está vendo que é dia de descansar? 
- Perdão, é dia em que se pode ou não descansar, e eu estou com o expediente atrasado. 
- Desce – repetiu o outro com tédio. – Olha que te encanam se você começa a virar macaco pela parede acima.
- Mas, e o senhor por que então está vigiando, se é dia de descanso? 
- Estou aqui porque a patroa me escaramuçou, dizendo que não quer vagabundo em casa. Não tenho para onde ir, tá bem?
João Brandão aquiesceu, porque o outro, pelo tom de voz, parecia disposto a tudo, inclusive a trabalhar de braço, a fim de impedir que ele trabalhasse de pena. Era como se o vigia dissesse: 
“Veja bem, está estragando meu dia. Então não sabe o que quer dizer facultativo?” João pensava saber, mas nesse momento teve intuição de que o verdadeiro sentido das palavras não está no dicionário; está na vida, no uso que delas fazemos. Pensou na Constituição e nos milhares de leis que declaram obrigatórias milhares de coisas, e essas coisas, na prática, são facultativas ou inexistentes. Retirou-se, digno, e foi decifrar palavras cruzadas.
 
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Mag, Magzinha


Eu, finalmente apresento a minha Magzinha.
Ela nem é mais tao pequena assim, tá com 7 meses e nao para nem dormindo.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Me Dá Um Olá


Ultraje a Rigor

Me dá um olá
Me manda um oi
Onde cê está?
Onde é que foi?


Que eu estou no ar
Sem saber
Como cê está
Cadê você?


Cê não podia
Ter sumido assim
Cê sabe onde eu estou
Liga pra mim

Quem sabe um dia desses
Sua auto-estima baixa
Nossas agendas batem
E a gente se encaixa



P.S.: Isso é bem o que eu venho pensando esses dias, e novamente eu volto para o pequeno príncipe, a rosa e acho que a raposa, não tenho certeza dessa última, enfim.
Não é nem que você deva ficar responsável eternamente pela pessoa.
As pessoas tem sim o direito de ir embora, elas tem SIM o direito de não querer mais, elas podem sim desistir daquela história e querer construir outra.

O que eu não acho justo é o sumiço, ir embora sem justificativa, desaparecer sem avisar. Não, você nao tem o direito de fazer as pessoas sofrerem!

Acredito que se você quer sumir, beleza! SOME! DESAPARECE! Mas avisa antes, dá um toque. 
É só dizer: Estou indo embora, thcau. 
Precisa nem do tchau. Nem precisa de explicação. 
Os seus motivos são seus motivos e ninguém precisa ficar sabendo deles.

Olha, não dá para deixar a expectativa, não pode deixar que o outro fique esperando sem saber o que de fato aconteceu. 
Não é justo, Não é certo!

P.S.²: Só para ficar mesmo o pensamento do final de semana.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Só para registrar

Meu primeiro dia de aula foi assim:

As aulas começaram na segunda, mas eu só cheguei na sexta, atrasada.
O Gustavo me acompanhou quase que até a porta, porque eu estava com vergonha de entrar atrasada, me deu um beijo na testa e desejou boa sorte e boa aula.
Eu entrei, quase vermelha.
A sala era grande e estava lotada. Sentei na última cadeira da última fileira.
Observei uma pessoa conhecida.
Era aula de texto. O professor caricato.
A atividade era descrever uma, somente uma e não a história toda, cena de algum filme, qualquer um.
Não me veio NENHUM filme à cabeça.
Ele descreveu uma cena com o Hulk, ele riu, todos riram e eu não vi muita graça não. Talvez por eu não ter visto o filme. É, eu não sou boa com filmes.
Não me lembro qual cena de qual filme eu fiz.

Isso faz quase um ano e..naquele dia eu não fazia ideia de tudo o que viria pela frente.



P.S.: Acho que essa é uma das linhas tortas com escrita certa.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Clarice Falcão

Qualquer Negócio
Me deixa ser
Quem faz o laço
Da gravata
Do mordomo
Que te serve o jantar
Me deixa ser
O suporte que segura
A tela plana
Da sua sala
No lugar

Me deixa usar
O pé pra equilibrar
Aquela mesa bamba
Que você aposentou
Há mais de um mês
Me deixa ser
A sua estátua
De jardim,
O seu cabide de casacos,
Só não me tira de vez
Da sua casa

Eu posso ser a empregada
Da empregada
Da empregada
Da empregada
Do seu tio.

Me deixa ser
O seu pingüim
De geladeira,
Eu fico uma semana inteira
Sem mexer
Me deixa ser
O passarinho do relógio
Que de hora em hora
Pode aparecer,
Pra eu te ver

Me deixa ser
Quem passa a calça
Que você precisa usar
No seu jantar
À luz de velas
Com alguém
Me deixa ser quem deixa
Vocês dois
De carro
Em um restaurante caro
Só não deixa eu ser ninguém
Na sua vida



P.S.: Essa música me causa uma angústia e uma aflição tão grandes..

sexta-feira, 21 de março de 2014

"Momento asterisco"

"Poxa, feministas, eu tô com vocês. Eu evito sair de shortinho curto na rua porque quando me paqueram com aquela sugada de saliva erótica eu sinto vontade de vomitar."

Tati Bernardi


P.S.: E eu tenho um mundo de coisas engasgadas aqui na garganta sobre feminismo, machismo, abusos, violências, coisificação da mulher e essas histórias revoltantes. Eu vou falar, só tô esperando o tempo para escrever.

O que não se pode explicar aos normais

Banda Catedral   Sobre o amor e o desamor, sobre a paixão Sobre ficar, sobre desejar, como saber te amar? Sobre querer, sobre entender, sem ...